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Vermillion: o ateliê de pintura a óleo que cabe na sua sala
Você mistura o amarelo com o azul, vê o verde nascer na paleta e pinta sem ninguém contando pontos.
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Um ateliê de pé no meio da sala
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Em 2016, a pesquisadora Girija Kaimal, da Universidade Drexel, na Filadélfia, mediu o cortisol (o hormônio ligado ao estresse) de 39 adultos antes e depois de 45 minutos de desenho, colagem ou modelagem livre. O nível caiu em 75% dos participantes.
O dado que mais surpreendeu a equipe veio depois. A queda apareceu tanto em quem tinha formação artística quanto em quem não pegava num lápis desde a escola, e o estudo saiu na revista Art Therapy no mesmo ano.
Kaimal não avaliou os trabalhos. Ninguém recebeu nota, ninguém competiu com o vizinho de mesa, e o efeito veio do ato de fazer, não do resultado pendurado na parede.
Quase todo jogo em realidade virtual faz o contrário. Existe um placar, um cronômetro, uma estrela que você perde se errar o ritmo, e a cabeça passa a noite inteira sendo medida.
O jogo desta edição tira a medição da sala. Você coloca o visor, e um cavalete de madeira aparece de pé no seu tapete, com uma tela em branco presa e uma paleta de madeira esperando na mão esquerda.
Os tubos de tinta ficam numa mesinha. Você aperta um deles, a tinta sai grossa na paleta, e o pincel precisa ser mergulhado, girado e puxado para carregar cor.
A mistura se comporta como a de um ateliê. Amarelo com azul vira verde, branco demais deixa tudo pastel, e um pincel sujo de vermelho contamina a próxima pincelada até você limpá-lo no pano.
A tela responde ao gesto. Pressão leve deixa um rastro fino e seco, pressão forte espalha a massa de tinta, e a espátula raspa o que ficou ruim.
Nenhum erro custa pontos. Se o céu ficou turvo, você pinta por cima; se o quadro inteiro desandou, pega outra tela e começa de novo sem gastar um centavo de material.
A pesquisa de Kaimal cabe inteira nesse cavalete: 45 minutos de pintura sem juiz, com as mãos ocupadas e a cabeça longe do placar.
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I O Jogo do Dia
Um holandês e uma paleta que suja
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Vermillion é um simulador de pintura a óleo em realidade virtual criado pelo desenvolvedor holandês Thomas van den Berge, que trabalhou sozinho no jogo. A versão para computador com visor estreou em acesso antecipado (fase de venda com o jogo ainda em construção) na Steam em 2022, e a versão para Meta Quest chegou em 2023.
O nome vem de um pigmento. Vermelhão é o vermelho vivo feito de cinábrio, mineral de mercúrio, usado por pintores desde a Antiguidade, e batizar o jogo com ele anuncia a obsessão pela tinta.
O centro do projeto é a mistura. Telas comuns somam luz, e na tela do celular vermelho com verde dá amarelo; a tinta subtrai luz, e o mesmo par vira um marrom barrento.
Van den Berge programou a paleta para seguir a regra da tinta. As cores se misturam como pigmento, e um azul-ultramar com um pouco de amarelo-cádmio chega a um verde de folha que nenhum seletor de cores entrega pronto.
O pincel também tem física própria. As cerdas dobram quando tocam a tela, a carga de tinta acaba no meio da pincelada, e o traço vai ficando seco e arranhado até você voltar à paleta.
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Em Vermillion, o verde que você procura não existe num botão: ele nasce da sua mão misturando duas cores.
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O ateliê traz os objetos de um pintor de verdade. Há pincéis de tamanhos variados, espátula, pano para limpar as cerdas e um pote de solvente para tirar a cor antiga antes de trocar de tom.
No Quest 3 e no Quest 3S, o jogo usa a realidade mista (a câmera do visor mostra a sua sala real com os objetos virtuais por cima). O cavalete fica plantado entre o sofá e a estante, e você anda em volta dele como andaria em volta de um de madeira.
Para quem nunca pintou, há aulas guiadas. Um professor virtual conduz pinturas simples passo a passo, da camada de fundo ao último reflexo de luz, e explica por que cada etapa vem naquela ordem.
Para quem quer referência, há uma câmera instantânea no ateliê. Você fotografa um vaso, uma janela ou a própria paisagem do cenário, prende a foto na borda do cavalete e pinta olhando para ela.
Os quadros terminados vão para uma galeria. Você pendura as telas nas paredes do ateliê virtual e pode voltar a elas depois, para retocar ou só para ver o que já fez.
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II Por Que Vale a Noite
Nenhum ponto, só a próxima pincelada
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A noite rende porque a única pergunta que o jogo faz é qual cor vem agora, e qualquer resposta vale.
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"A cor é a tecla, o olho é o martelo, a alma é o piano de muitas cordas", escreveu o pintor russo Wassily Kandinsky em Do Espiritual na Arte, livro de 1911.
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Vermillion leva a imagem de Kandinsky a sério. Você aperta a tecla ao escolher o tubo, o olho decide se o tom ficou certo, e a noite passa sem que alguém anuncie quem ganhou.
O primeiro prazer é a descoberta da mistura. Chegar sozinho ao cinza azulado de um céu de inverno, depois de três tentativas que deram lilás, traz uma alegria pequena e muito concreta.
O segundo é o corpo em pé. Pintar num cavalete pede passos para trás para ver o conjunto e passos para a frente para o detalhe, e o braço trabalha como trabalharia com um pincel de madeira.
O terceiro é a falta de bagunça. A tinta a óleo real custa caro, cheira forte, leva dias para secar e mancha o chão; no visor, a sala continua limpa quando você tira o aparelho.
O quarto é o erro sem preço. Uma tela estragada não queima material nem dinheiro, e a coragem de testar uma cor absurda cresce quando a tentativa não custa nada.
O quinto é a quietude. Sem trilha agitada, sem inimigo chegando e sem relógio na tela, a sessão vira uma pausa longa, perto do que Kaimal mediu na Drexel.
A primeira ressalva é a precisão. O controle não tem a sensibilidade de uma cerda de verdade, e o detalhe fino, como o brilho de um olho num retrato, exige paciência com a mão parada no ar.
A segunda ressalva é o peso do visor. Pintar pede sessões longas, e depois de uma hora o aparelho na testa pesa mais do que o braço estendido.
A terceira ressalva é o limite do simulador. A tinta virtual não ganha relevo espesso como a tinta a óleo de verdade, e quem quer o empaste de Van Gogh (a tinta aplicada em camadas grossas) vai sentir falta da textura.
A quarta ressalva é a expectativa. Quem procura desafio com fase, chefe e vitória vai achar a experiência parada, porque o jogo não oferece meta além do quadro que você mesmo inventar.
Para quem quer desligar a cabeça pintando, as ressalvas pesam pouco diante de uma tela que aceita qualquer tentativa sem cobrar nada.
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