|
|
|
100% escolheram Iron Man VR. Sai em 20/09.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
Brink Traveler, o visor que troca o inimigo pela borda de um cânion de verdade
Paisagens reais escaneadas foto a foto, salto no lugar do passo que embrulha o estômago, e nenhuma criatura esperando na esquina.
|
Visor largado sobre a pedra de arenito
|
| ▼ |
| |
|
Em 1984, Roger Ulrich publicou na revista Science o acompanhamento de 46 pacientes operados da vesícula num hospital da Pensilvânia. Os 23 que se recuperaram em quartos com janela para um grupo de árvores tiveram alta pouco menos de um dia antes e pediram bem menos analgésico forte que os 23 colocados diante de uma parede de tijolos.
O pesquisador foi cuidadoso na leitura do próprio resultado: nenhuma árvore fecha corte cirúrgico. O que a janela parece fazer é ocupar a atenção de um jeito que não cobra esforço, e uma atenção ocupada assim reclama menos do corpo.
Um visor de realidade virtual passou os últimos anos vendendo o oposto disso. O catálogo cresceu à base de arma na mão, criatura na esquina e corrida de corredor, porque tensão é o que mais fácil se transforma em vídeo curto de divulgação.
Existe uma prateleira bem menor, quase sem barulho de lançamento, que vende paisagem parada. Nada persegue você, nada dispara um cronômetro, e a única tarefa é chegar mais perto da beirada e olhar.
O material dessa prateleira não é cenário desenhado por artista. Ele nasce de fotogrametria, a técnica que remonta um lugar em três dimensões a partir de centenas de fotos da mesma pedra tiradas de ângulos diferentes, com a cor e o relevo originais preservados no modelo.
O resultado tem uma textura que arte conceitual não alcança. A rachadura do arenito está no lugar onde a água a abriu, o líquen cresce na face que pega sombra, e o horizonte tem a irregularidade chata e verdadeira de uma montanha real.
O andar também muda de natureza nessa prateleira. Você não desliza pelo terreno com a alavanca do controle: aponta para um ponto do chão, aperta o gatilho e aparece lá, num piscar, sem o deslocamento contínuo que embrulha o estômago de quase todo iniciante.
A viagem de hoje acontece numa borda de cânion no Arizona, com vento gravado no lugar certo e nenhuma criatura esperando atrás da pedra.
A ficha completa, do primeiro salto ao custo real do aparelho, começa agora.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Jogo do Dia
Paisagem escaneada foto a foto e um salto no lugar do passo
|
|
Nada corre atrás de você aqui, e mesmo assim você dá um passo para trás.
Brink Traveler, do estúdio norte-americano Brink XR, sediado em Fort Collins, no Colorado, chegou em 26 de agosto de 2021 para a linha Quest e para visores de computador na Steam.
O catálogo inicial reuniu destinos de clima bem diferente entre si, e as atualizações gratuitas do estúdio seguiram acrescentando outros ao longo dos anos. Borda do Grand Canyon, deserto de arenito do sudoeste americano, vale glacial, praia de pedra escura, floresta alta e campo de lava fazem parte do passeio.
Cada destino vem com pontos de parada espalhados pelo terreno. Você aponta o controle para o chão, aperta o gatilho e surge no mirante escolhido, de onde consegue girar o corpo e olhar em qualquer direção.
A escala é o primeiro susto. Uma parede de cânion escaneada em tamanho real tem centenas de metros de altura acima da sua cabeça, e o corpo responde a isso com um passo para trás mesmo sabendo que o chão de casa continua liso.
O áudio foi gravado no próprio local. Vento batendo na rocha, água correndo baixo, pássaro distante e o silêncio grosso de um vale fechado chegam pelo fone e resolvem metade da presença que a imagem começou.
A luz é ajustável. Você move a hora do dia num controle simples e vê a mesma parede passar do cinza de amanhecer para o laranja de fim de tarde, com a sombra mudando de lado enquanto você fica parado no mesmo ponto.
|
Aqui a única coisa que pode te assustar é a altura de uma pedra que existe de verdade.
|
Existe narração curta em cada destino. Uma voz explica como aquela formação se abriu, quanto tempo a água levou para cavar a garganta e o que vive ali, com a opção de desligar tudo e ficar só com o vento.
Não há pontuação, inimigo, vida, munição, tempo limite ou tela de derrota. A sessão termina quando você decide que terminou, e o aplicativo não cobra nada pela ausência.
O estúdio publicou depois um irmão focado em espaço, com corpos do sistema solar no lugar dos parques, montado sobre o mesmo motor de deslocamento por salto e de áudio ambiente.
|
|
|
|
|
II Por Que Vale a Noite
A noite em que não existe nada para vencer
|
|
A noite rende porque você chega ao visor cansado de decidir coisas e encontra um lugar que não pede decisão nenhuma. Ninguém aponta para onde ir, ninguém marca ponto, e a única pergunta na cabeça vira qual pedra merece a próxima aproximação.
|
O achado de Ulrich ajuda a explicar por que o passeio não fica maçante depois de dez minutos. Uma paisagem prende a atenção sem cobrar esforço, e a atenção que não está sendo cobrada é a que descansa.
|
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e civilizadas demais estão começando a descobrir que ir às montanhas é ir para casa, que a natureza selvagem é uma necessidade", escreveu John Muir em Our National Parks, de 1901.
|
O naturalista escocês radicado na Califórnia escrevia para convencer o Congresso americano a proteger os parques, e acertou o diagnóstico do leitor urbano quase um século antes de existir visor. O aplicativo de hoje vende exatamente o remédio que ele descreveu, em porção de vinte minutos.
O ganho mais concreto está no estômago de quem enjoa. Em 1993, Robert Kennedy, Norman Lane, Kevin Berbaum e Michael Lilienthal publicaram no The International Journal of Aviation Psychology o questionário de enjoo de simulador, o formulário que virou padrão para medir náusea, desconforto ocular e desorientação em ambientes simulados.
O trabalho dos quatro separou o mal-estar em famílias diferentes, e a família ligada à desorientação é justamente a que o deslocamento contínuo alimenta. Um passeio que anda só por salto corta a causa em lugar de tentar disfarçar o efeito.
A primeira ressalva é a superfície congelada. Um lugar escaneado não tem bicho andando, folha caindo nem nuvem correndo, e o olho percebe a quietude antiga da fotografia depois de alguns minutos no mesmo mirante.
A segunda ressalva é a falta de liberdade de pé. Você viaja entre pontos definidos pelo estúdio, sem descer a encosta por conta própria, o que frustra quem esperava caminhar livre pelo parque inteiro.
A terceira ressalva é o tamanho do acervo. O número de destinos é contável, você visita todos numa semana de noites curtas, e a volta depende de gostar de rever lugar, como quem repete uma trilha conhecida.
A quarta ressalva é o peso na cabeça. Contemplação pede permanência, e o aparelho aperta a testa depois de meia hora, com o contrapeso na faixa traseira resolvendo boa parte do incômodo de quem fica mais tempo.
A leitura desta edição saiu da ficha oficial da loja da Meta, do material público do Brink XR sobre a captura dos destinos e de sessões acompanhadas em Quest 3 com fone fechado.
|
| |
|